Afonso Rocha – Luele
Afonso-Rocha

Afonso Rocha

Bacia dos Rejeitados

CI. Qual é a análise que faz da participação de Angola no Mining Indaba 2026 em particular da Sociedade Mineira do Luele?

Participar no Mining Indaba 2026 como técnico da Sociedade Mineira do LUELE, uma das mais relevantes operadoras do sector diamantífero Angolano, foi uma experiência de elevado valor estratégico, técnico e institucional.

O evento, realizado em Cape Town Internacional Convention Centre, na Cidade do Cabo, África do Sul, proporcionou um ambiente de discussão ao mais alto nível, reunindo decisores governamentais, CEOs de multinacionais mineiras, investidores institucionais, fabricantes de equipamentos e especialistas em sustentabilidade e inovação tecnológica.

Enquanto representante técnico da SM LUELE, a minha participação teve dupla dimensão:

– Dimensão técnica: centrada na eficiência operacional com recursos as melhores práticas, optimização de processos, segurança industrial, gestão de recursos minerais e inovação tecnológica;

– Dimensão estratégica: focada no posicionamento de Angola no mercado internacional de diamantes e na consolidação da confiança dos investidores.

No plano técnico, foi particularmente relevante acompanhar as discussões sobre digitalização da mineração, integração de sistemas de monitorização em tempo real, modelação geológica avançada, gestão de risco operacional e eficiência energética nas plantas de tratamento. A mineração moderna exige precisão de dados, controlo rigoroso de custos e adopção de tecnologias que aumentem a recuperação e reduzam perdas, temas extremamente pertinentes para uma operação diamantífera da dimensão do Luele.

No plano institucional, a presença angolana foi notória. Observou-se um interesse crescente por parte de investidores internacionais relativamente ao quadro regulatório angolano, às reformas estruturais do sector mineiro e ao esforço do país em reforçar a transparência, a estabilidade contratual e a atracção de investimento responsável.

Enquanto técnico, senti que a nossa missão foi também demonstrar maturidade operacional. Mostrar que Angola já não é apenas um território com potencial geológico, mas um país com operações estruturadas, com padrões internacionais de segurança, responsabilidade social e governação corporativa.

As reuniões bilaterais realizadas durante o evento permitiram trocar experiências com outras operações diamantíferas africanas e globais, analisar benchmarking internacional e identificar oportunidades de cooperação técnica, especialmente em áreas como eficiência de recuperação, sustentabilidade ambiental e optimização de cadeias logísticas.

Em termos pessoais e profissionais, foi uma experiência intensa, exigente e intelectualmente estimulante. O MINING INDABA não é apenas um evento, é um barómetro do sector mineiro africano e global.

O que mais me marcou foi a clara transformação do paradigma da indústria mineira africana.

Primeiro, a centralidade dos critérios ESG (Environmental, Social and Governance).

Hoje, uma operação mineira, incluindo no sector diamantífero, não é avaliada apenas pelo volume de produção ou pela qualidade do recurso, mas pela forma como gere o impacto ambiental, integra as comunidades locais, assegura boas práticas de exploração e laborais e mantém elevados padrões de governança.

A sustentabilidade deixou de ser um discurso, tornou-se um requisito de acesso a financiamento e a mercados premium.

Segundo, chamou-me atenção a crescente sofisticação tecnológica. A mineração 4.0 já é uma realidade: automação de equipamentos, inteligência artificial aplicada à modelação geológica, sistemas de controlo remoto, análise preditiva de manutenção e optimização digital das plantas de processamento. Isso reforça a necessidade de constante capacitação técnica das equipas.

Terceiro, marcou-me a discussão sobre valor agregado local. Houve um discurso consistente sobre a necessidade de os países africanos internalizarem mais etapas da cadeia de valor, desde a exploração até à transformação e comercialização. No caso do sector diamantífero, isso implica fortalecer o corte e lapidação local, desenvolver centros de comercialização transparentes e consolidar a reputação internacional do produto.

Por fim, foi marcante perceber que Angola está num momento estratégico. O país é visto como uma jurisdição com elevado potencial geológico e com sinais claros de abertura e reforma. Como técnico da Sociedade Mineira do LUELE, senti orgulho em representar uma operação que simboliza essa nova fase do sector diamantífero angolano mais estruturada, mais transparente e mais alinhada com padrões internacionais.

Em síntese, o que mais me marcou foi a convicção de que o futuro da mineração e do sector diamantífero angolano dependerá da nossa capacidade de combinar três pilares fundamentais: excelência técnica, sustentabilidade real e credibilidade institucional.

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